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    Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

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    lpslucasps
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    Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

    Mensagem por lpslucasps em Seg 23 Mar 2015, 00:31

    Por Lucas Pinheiro Silva
    Postado originalmente no site GameBlast
    Revisão: Leonardo Nazereth
    Capa: Felipe Araújo

    Imagine, por um segundo, uma obra de entretenimento cujo herói seja um criminoso violento e mulherengo que comete vários crimes para cumprir seus objetivos. A obra em questão é popular principalmente entre jovens e crianças e, talvez justamente por isso, acaba sendo acusada de corromper as gerações mais novas, torná-las violentas e influenciá-las a cometer crimes na vida real.

    De que jogo estou falando? Doom (PC)? Postal (PC)? GTA V (Multi)? Call of Duty (Multi)?


    Falem o que quiser, mas ainda acho que Mario Party causa bem mais violência que todos esses jogos juntos.

    A resposta certa é: nenhum. Estava me referindo à “Ópera dos Vagabundos” (The Beggar’s Opera), peça de teatro lançada originalmente em 1724. Uma das primeiras óperas de balada da história, a obra revolucionou o teatro do inglês com seu estilo popular e linguagem acessível. Sua popularidade foi proporcional à sua polêmica. Muitos criticarem a vulgaridade da trama e, principalmente, a presença de Macheath, o vilão protagonista da história, que seria uma glorificação do crime e hedonismo. Alguns críticos chegaram a identificar a composição teatral como responsável direta pelo aumento de crimes e violência na Europa.

    “Os efeitos da Ópera dos Vagabundos na mente das pessoas cumpriu os prognósticos de muitos de que que se provariam danosos para a sociedade. Roubos e violência têm aumentado gradualmente desde sua primeira representação. Jovens e aprendizes sentem-se cativados pelos charmes da ociosidade e prazer criminal. Homens de discernimento que têm trabalhado duro em achar a fonte desses males descobriram que muitos dos criminosos condenados nos últimos cinquenta anos estiveram em seus caminhos tentando imitar as ações e caráter de Macheath.”

    Sir John Hawkins, em A general history of the science and practice of music, 1789


    Maldito teatro, tornando as crianças violentas!

    Qualquer semelhança com as declarações de Jack Thompson sobre GTA e outros jogos violentos não é mera coincidência.

    O novo Rock & Roll

    Jogos violentos como Doom e GTA são apenas o último exemplo de uma longa cadeia de preconceitos que já incluiu cinema, televisão, música, quadrinhos e, como o caso acima bem demonstra, até teatro. Historicamente, novas formas de entretenimento sempre enfrentam alguma espécie de resistência dos setores mais conservadores da sociedade à medida que ganham popularidade — principalmente entre jovens e crianças. Em última instância, as novas mídias acabam sendo responsabilizadas, direta ou indiretamente, pelos mais variados tipos de mazelas sociais.


    Mas os videogames são claramente os responsáveis pela violência!

    Uma das maiores influências nesse processo é o medo do novo e desconhecido. Em grande parte, novas mídias sofrem preconceito simplesmente por serem novas. O ódio irracional, afinal, não passa de uma ignorância destilada pelo medo.


    Infelizmente, em muitos casos a religião acaba agindo como catalisador deste evento, com discursos alarmistas que são bem apelativos para algumas pessoas. Foi desta forma que, por exemplo, várias bandas de Hard Rock quase foram censuradas nos anos 1980 nos Estados Unidos devido a ação de um grupo, até ser criado um selo que marcasse discos com “conteúdo explícito”.

    Histeria ainda maior afetou o mercado de quadrinhos nos anos 1950 após o lançamento do livro Seduction of the Innocent (“Sedução dos Inocentes”, em tradução livre), do psiquiatra Frederic Wertham. Segundo o médico, delinquência juvenil, violência e até mesmo homossexualidade (!) seriam alguns dos efeitos dos quadrinhos nos jovens. A polêmica gerada na época foi suficiente para chamar a atenção do congresso americano e criar uma agência reguladora (e censora) para a indústria, a Comics Code Authority.


    E é por isso que não existem mais homossexuais hoje em dia!

    Mas a ignorância não é o único elemento a influenciar o preconceito com as novas mídias. Fatores econômicos também têm seu papel. Quando a televisão foi reintroduzida nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, logo formou-se um lobby contra a nova indústria que tentava desacreditá-la e denunciar seus efeitos negativos na sociedade. Sem muitas surpresas, esse lobby era fomentado pelos barões da imprensa e cinema, apavorados com a possibilidade de perder parte de se mercado com a adoção em massa da TV.

    No decorrer da história, há muitos outros casos de novas formas de mídia e entretenimento sofrendo alguma forma de resistência. Nem mesmo a literatura escapa impune: Sócrates, na Grécia Antiga, via a linguagem escrita com hostilidade, advertindo seus discípulos quanto aos efeitos negativos trazidos por ela, engessando ideias, tornando homens preguiçosos e privando as mentes do pensar.

    “Essa descoberta, na verdade, provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque, confiados na escrita, recordar-se-ão de fora, graças a sinais estranhos, e não de dentro, espontaneamente, pelos seus próprios sinais.”

    Sócrates, no diálogo de Platão Fedro

    Em pensar que hoje em dia ler muito é sinal de inteligência…

    O que era novo, um dia fica velho

    Em todos estes os casos, entretanto, é notável que o preconceito com as novas mídias desapareceu tão logo elas deixaram de ser… novas! Hoje em dia, dificilmente alguém é criticado por gostar de TV ou cinema. Os quadrinhos, antes considerados infantis, tornaram-se parte da cultura popular e são consumidos principalmente por adultos. Já o Rock & Roll deixou de ser considerado apenas “barulho cheio de indecências” há muito tempo — tal alcunha agora recai sobre novos gêneros musicais, como funk, hip-hop e pop modernos. Que dizer, então, do teatro e literatura? Tais formas de entretenimento chegam até mesmo a serem idealizadas hoje em dia e as pessoas que as consomem vistas como intelectuais e cultas.


    Sócrates teria um ataque.

    Videogames e outras formas de comunicação e entretenimento modernas (como a internet e redes sociais) já estão no meio deste processo. Pouco a pouco, as gerações que cresceram com um joystick na mão e não tem preconceitos com os jogos começam a ganhar mais espaço no mercado e mídias. Talvez no futuro jogar um clássico como The Legend of Zelda (NES) e Super Metroid (SNES) seja considerado tão "cult" quanto ir ao teatro assistir à Opera do Vagabundos?

    “Toda mídia ou indústria nova que cresce rapidamente é criticada. Isso é porque a mídia mais velha e estabelecida estava aí há mais tempo e muitos adultos podem ser bem conservadores. Eles podem não ter uma mente aberta para novas coisas que não existiam quando eles estavam crescendo, e que agora estão substituindo as coisas que eles usavam na infância…”

    Shigeru Miyamoto

    Só espero que eu não acabe inconscientemente entrando nesse ciclo e hostilizando mídias do futuro, falando aos meus filhos e netos como “videogames da minha época sim eram bons, não essas porcarias de realidade virtual”.


    Na minha época, jogos tinham botões!
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    Re: Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

    Mensagem por Math_Geek em Seg 23 Mar 2015, 01:28

    Uau, nem acredito que eu nunca tinha lido um dos seus tópicos. Ia até dormir, mas já estou lendo outros! Você escreve de uma forma muito incrível, parabéns! Very Happy

    eu realmente tenho que parar de entrar só na pokémon blast -q
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    Re: Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

    Mensagem por vits em Seg 23 Mar 2015, 05:55

    Não gostei, está muito bem feito, da próxima tente fazer algo menos profundo e sem esse acabamento impecável ai, com certeza o texto vai ficar melhor. Razz

    Brincadeiras a parte, excelente matéria, como sempre @lpslucasps.
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    Re: Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

    Mensagem por Alejandro_ em Seg 23 Mar 2015, 06:51

    As pessoas matam por causa de religião, por causa de videogames, por filmes. O problema não está na religião, no videogame ou nos filmes, e sim nas pessoas.
    Bom tópico, como sempre Razz, Lucas!
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    Re: Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

    Mensagem por Robert Prado em Seg 23 Mar 2015, 12:00

    Excelente matéria, eu lí no portal mas não costumo comentar alí.
    Essa imagem é tão verdadeira e acontece em tantas ocasiões:

    Gostei bastante da forma como você provou que este tipo de situação acontece muito antes do que a maioria pensa e infelizmente é normal, durante o processo de adaptação.
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    Re: Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

    Mensagem por Nan Gamer em Seg 23 Mar 2015, 12:20

    Acho que tudo na vida é uma questão de escolhas. Vc colhe o que planta. O que serve pra uns não serve pra outros. Uns gostam de uma coisa e outros de outras. E qual está errado? Nenhum dos dois.

    É óbvio que pessoas que viviam em outras épocas vão preferir e optar na maioria das vezes pela situação, ou pelo produto, ou qualquer coisa que venha a remeter o passado.

    É a mesma coisa de chegar um cara de 50 anos e dizer que Os Beatles, ou os Bee Gees, ou os Rolling Stones, ou Michael Jackson sejam melhores que One Direction, Justin Timberlake ou Lady Gaga.

    É óbvio que em muitas situações a comparação chega a ser algo absolutamente sem sentido, mas elas sempre existirão. Talvez seja por motivos como esses citados na matéria que se insiste tanto em IPs repetitivas ao invés de criar-se novos conceitos e maneiras de se jogar uma nova IP.
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    lpslucasps
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    Re: Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

    Mensagem por lpslucasps em Ter 24 Mar 2015, 17:34

    Math_Geek escreveu:Uau, nem acredito que eu nunca tinha lido um dos seus tópicos. Ia até dormir, mas já estou lendo outros! Você escreve de uma forma muito incrível, parabéns! Very Happy

    eu realmente tenho que parar de entrar só na pokémon blast -q
    Obrigado pelas palavras gentis.

    vits escreveu:Não gostei, está muito bem feito, da próxima tente fazer algo menos profundo e sem esse acabamento impecável ai, com certeza o texto vai ficar melhor. Razz

    Brincadeiras a parte, excelente matéria, como sempre @lpslucasps.
    O zelo pela simplicidade não deve ser mencionado em vão, melhor rever seus conceitos.

    Brincadeiras com sua brincadeira à parte, obrigado pelos elogios.

    Alejandro_ escreveu:
    As pessoas matam por causa de religião, por causa de videogames, por filmes. O problema não está na religião, no videogame ou nos filmes, e sim nas pessoas.
    Bom tópico, como sempre Razz, Lucas!
    Sim, mesmo que baníssemos todas as religiões e formas de entretenimento, não solucionaríamos o problema da violência. É complicado.

    Robert Prado escreveu:Excelente matéria, eu lí no portal mas não costumo comentar alí.
    Essa imagem é tão verdadeira e acontece em tantas ocasiões:
    Essa imagem é uma das mais úteis na minha biblioteca. Razz

    Nan Gamer escreveu:Acho que tudo na vida é uma questão de escolhas. Vc colhe o que planta. O que serve pra uns não serve pra outros. Uns gostam de uma coisa e outros de outras. E qual está errado? Nenhum dos dois.

    É óbvio que pessoas que viviam em outras épocas vão preferir e optar na maioria das vezes pela situação, ou pelo produto, ou qualquer coisa que venha a remeter o passado.

    É a mesma coisa de chegar um cara de 50 anos e dizer que Os Beatles, ou os Bee Gees, ou os Rolling Stones, ou Michael Jackson sejam melhores que One Direction, Justin Timberlake ou Lady Gaga.

    É óbvio que em muitas situações a comparação chega a ser algo absolutamente sem sentido, mas elas sempre existirão. Talvez seja por motivos como esses citados na matéria que se insiste tanto em IPs repetitivas ao invés de criar-se novos conceitos e maneiras de se jogar uma nova IP.
    A questão nem é a preferência por um tipo de mídia ou outra, ou um artista ou outro, mas o preconceito velado que se tem com o que é novo simplesmente por ser novo. Videogames, por exemplo, parecem ter em si o ônus da prova em tudo, tendo que comprovar para a sociedade que não são violentos, que podem ser considerados arte e cultura, que não são coisa de criança, etc... Algo que não acontece com, por exemplo, filmes e música, formas de entretenimento mais estabelecidas.

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    Re: Videogames, violência e o preconceito com as novas mídias

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